O cinema produzido em Mossoró ganha mais um importante espaço de projeção no cenário nacional. O curta-metragem “Umbuzeiro”, dirigido pelo professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), escritor e cineasta cearense Emílio Ribeiro, foi selecionado para o 36º Cine Ceará – Festival Ibero-americano de Cinema, um dos mais tradicionais e importantes festivais cinematográficos do Brasil. O evento será realizado de 7 a 13 de novembro, em Fortaleza.
Com a nova seleção, “Umbuzeiro” chega a 23 festivais nacionais e internacionais e acumula 18 prêmios. A produção também foi selecionada para a 9ª edição do Curta Caicó, importante festival realizado na região do Seridó Potiguar.
No Cine Ceará, o curta integrará a Mostra Olhares do Ceará. A seleção possui um significado especial para a trajetória da obra, que é dirigida por um cineasta cearense e foi filmada majoritariamente no histórico casarão da Fazenda Trigueiro, em Pereiro, no Ceará.
Violência, memória e sobrevivência
“Umbuzeiro” nasce de uma proposta de abordar a violência contra a mulher a partir de suas marcas mais silenciosas e persistentes. Em vez de concentrar sua narrativa na representação explícita da violência, o filme investiga suas consequências sobre o corpo, a memória, o cotidiano e o espaço doméstico. A história acompanha uma mulher idosa que vive reclusa em um antigo casarão. Sua mente fragmentada faz com que passado e presente se aproximem e se confundam, enquanto lembranças e delírios passam a integrar uma narrativa marcada pelo mistério.
A casa assume papel central nessa construção. O antigo casarão, com seus espaços fechados, sombras, silêncios e sons, contribui para a atmosfera opressiva do filme. O gótico, nesse contexto, não aparece apenas como elemento visual ou ornamental, mas como uma forma de representar o medo, o trauma e as experiências de opressão vividas no ambiente doméstico.
A obra dialoga, assim, com o chamado gótico feminino, vertente que comumente utiliza elementos ligados ao trauma, à insanidade e ao confinamento para representar experiências de medo, ansiedade e opressão associadas à condição feminina diante de um contexto opressor.
A linguagem cinematográfica aposta no contraste entre luz e sombra, em enquadramentos dramáticos, transições e em uma fotografia que valoriza as expressões dos personagens e a própria arquitetura do casarão. A trilha sonora original, de caráter soturno, contribui para criar uma atmosfera de inquietação e tensão.
O umbuzeiro como símbolo
A árvore que dá nome ao filme possui uma dimensão simbólica fundamental na narrativa. Conhecido pela capacidade de resistir às condições adversas do semiárido, o umbuzeiro se relaciona à ideia de sobrevivência e resistência que atravessa a trajetória da personagem.
A árvore também estabelece uma relação com a memória e com a passagem do tempo, elementos fundamentais para a construção da narrativa. O filme utiliza essas imagens para refletir sobre aquilo que permanece mesmo quando aparentemente ficou no passado.
Outro eixo importante é a relação entre a personagem e seu filho, o professor Elias, que escreve um livro a partir das experiências e dos traumas relacionados à sua história familiar. A narrativa propõe, dessa forma, uma reflexão sobre a própria representação do trauma e sobre como contar a história de alguém se mistura com a própria existência do seu narrador.
Uma produção potiguar com olhar regional
“Umbuzeiro” marca a estreia de Emílio Ribeiro na direção e no roteiro cinematográfico. O roteiro foi desenvolvido em parceria com a jornalista e escritora feminista Camila Paula. Produzido pela potiguar Mistério Filmes, o curta contou com o apoio da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e do BNB Cultural Mossoró. A realização também possibilitou a participação de artistas e profissionais técnicos de Mossoró, aproximando a produção audiovisual do conhecimento científico desenvolvido na universidade.
A proposta está relacionada à valorização de vozes e narrativas regionais em um mercado audiovisual historicamente marcado pela predominância de produções estrangeiras. Nesse contexto, o filme procura contribuir para a construção de uma representação do semiárido que se afaste dos estereótipos e valorize suas paisagens, seus espaços e suas experiências humanas.
A fotografia de Adriano Pinheiro e Murilo Santos é um dos elementos centrais dessa proposta. O casarão, a paisagem e a presença do umbuzeiro são utilizados não apenas como cenários, mas como componentes da própria dramaturgia. A trilha sonora original, de autoria de Arthur Torquato, também ocupa lugar importante na construção da atmosfera do filme. Na voz da cantora Maria Juliana, professora do Curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Ceará (UFC), a canção “Folha Caduca” dialoga com os temas da memória, da passagem do tempo e das marcas deixadas pela experiência, reforçando a atmosfera melancólica e sensorial do filme e sua reflexão sobre dor, sobrevivência e transformação.
Do Rio Grande do Norte para o circuito internacional
A trajetória de “Umbuzeiro” ultrapassa as fronteiras brasileiras. No dia 5 de outubro, o curta será exibido no Transhumant Festival, em Barcelona, na Espanha.
O festival possui uma proposta voltada para um cinema comprometido com questões sociais, ambientais e com os direitos humanos, estimulando o diálogo e a reflexão sobre os desafios do mundo contemporâneo.
A participação de “Umbuzeiro” integra a programação internacional do evento, cuja cerimônia de encerramento e premiação será realizada no dia 11 de outubro. A expectativa da equipe é que o filme possa emocionar o público espanhol e conquistar mais um reconhecimento para o Rio Grande do Norte.
Veja o trailer de Umbuzeiro:
https://youtu.be/5b4DjGM4AnE


