Experiência planejada para a comunidade surda atraiu famílias com crianças, idosos, pessoas autistas e com dificuldade de locomoção
O que começou como uma proposta para ampliar o acesso da comunidade surda à história de Natal terminou revelando possibilidades ainda maiores de inclusão. Realizado nesse sábado (26), Dia Nacional dos Surdos, o primeiro Passeio Inclusivo pelo Centro Histórico reuniu um público diverso, com pessoas surdas e seus acompanhantes, famílias com crianças, idosos, pessoas autistas e com dificuldade de locomoção em um percurso por pontos que ajudam a contar a história da capital potiguar.
Com patrocínio institucional do Sistema Fecomércio RN por meio do Sesc RN, a atividade foi gratuita e contou com duas intérpretes de Libras acompanhando o grupo durante o percurso. A estrutura de interpretação possibilitou à comunidade surda acompanhar as explicações do historiador Alexandre Rocha e interagir durante a caminhada. A adesão surpreendeu os organizadores não apenas pelo número de participantes em uma tarde de sábado, mas pela diversidade do público. A presença de crianças, idosos e pessoas com necessidades específicas de acessibilidade mostrou, já na primeira experiência, que a adaptação do roteiro pode abrir possibilidades para alcançar outros grupos.
Entre os participantes estava Débora Lopes, 28 anos, estudante de Letras-Libras. Ela já havia conhecido pelas redes sociais uma edição anterior do passeio, realizada sem interpretação em Libras, e desta vez pôde vivenciar a experiência. “No ano passado, vi pelo Instagram um pouco do passeio, mas era só para ouvintes e não tinha interpretação em Libras. Hoje, com a acessibilidade, estou muito feliz de poder estar aqui e conhecer um pouco dessa história que eu realmente não conhecia. Está sendo uma experiência maravilhosa e muito interessante”, contou Débora.
A Associação de Surdos de Natal (Asnat) levou 20 participantes para a atividade. Secretária da entidade e intérprete de Libras há 14 anos, Jeane Macedo destacou o caráter inédito da experiência para a associação. “A Associação de Surdos de Natal tem 32 anos e é a primeira vez que acontece algo assim para a nossa comunidade no Dia do Surdo. Foi um convite que nos surpreendeu e está sendo maravilhoso. Muitos deles não conheciam a história de Natal e esta foi uma oportunidade de conhecer. Se o projeto continuar nos próximos anos, vamos querer trazer ainda mais pessoas”, avaliou Jeane.
Mais do que identificar os monumentos, o historiador apresentou personagens, acontecimentos e curiosidades relacionados à formação política, social e cultural de Natal. A dinâmica foi adaptada para que as duas intérpretes pudessem acompanhar as explicações e transmiti-las em Libras ao longo do percurso.
Coordenadora de Cultura do Sesc RN, Ilana Bernardo acompanhou a atividade e avaliou que a iniciativa está alinhada à atuação da instituição nas áreas de cultura, acessibilidade e inclusão. “Um dos pilares da missão do Sesc é proporcionar qualidade de vida para os diversos públicos por meio da saúde, educação, lazer, cultura e assistência. Esta ação dialoga diretamente com o programa Cultura e com a missão da instituição de levar qualidade de vida de forma acessível. O Sesc tem uma missão importante junto aos diversos públicos, principalmente com foco na acessibilidade e na inclusão”, explicou.
Para Ilana, a participação também demonstrou o alcance da proposta. “É um roteiro muito bem construído, que destaca nossos pontos históricos e inova ao trazer a comunidade surda, com duas intérpretes de Libras. Há um olhar técnico, mas também muito afeto na construção do projeto. Tivemos um público expressivo para um sábado à tarde, com crianças, adultos e idosos participando”, avaliou.
Experiência abre novas possibilidades
Idealizador e condutor do passeio, Alexandre Rocha terminou a primeira edição inclusiva com uma percepção que ultrapassou a proposta inicial. A presença de famílias, crianças, idosos, pessoas autistas e participantes com dificuldade de locomoção mostrou que um roteiro pensado a partir da acessibilidade pode beneficiar públicos diferentes.
“Estou emocionado por poder fazer isso. Conseguir chegar a um público que antes não tinha essa oportunidade é emocionante. E eu também aprendi. Descobri vários sinais em Libras e já estava tentando me comunicar com as mãos”, contou o historiador.
Alexandre disse ter sido surpreendido especialmente pela diversidade dos participantes. “Eu não imaginava que viriam tantas crianças nem pessoas com dificuldade de locomoção, mas conseguimos atender. Isso comprova uma coisa que pensei desde o início: este é um programa para a família e para a comunidade. Não é só para a pessoa surda, é para a pessoa surda e para quem a acompanha, porque essa é a comunidade para a qual fizemos o passeio”, avaliou.
A experiência servirá agora como referência para novas edições e para o desenvolvimento de formatos que ampliem a acessibilidade dos passeios históricos. A intenção é que outras necessidades possam ser consideradas, com possibilidades como audiodescrição e experiências táteis para pessoas com deficiência visual, rotas adequadas para pessoas com mobilidade reduzida e adaptações voltadas ao público neurodivergente.
Para Alexandre, a primeira experiência deixou clara a necessidade de continuidade. “É necessário que aconteça pelo menos uma vez por ano. Se eu pudesse fazer em todas as edições, faria”, afirmou.
E uma reação espontânea, ouvida pelo historiador ao final do percurso, resumiu a experiência de parte do público. Um dos meninos que participou da caminhada, ao perceber que o passeio chegava ao fim, perguntou: “Nossa, já acabou?”. Para Alexandre, a pergunta foi a confirmação de que a experiência havia funcionado.




