O Banco do Nordeste Cultural apresenta às 18h30 deste sábado, 26, o espetáculo “(em) carne viva”, uma produção que transita entre a dança contemporânea e a palestra-performance, misturando a apresentação cênica com a exposição de ideias e conceitos teóricos. Idealizado e encenado pela artista Mirela França, natalense de nascimento, radicada em Salvador (BA), o trabalho solo utiliza o corpo como território de saberes, contestação e memória.
A obra é diretamente inspirada em parte do pensamento do autor quilombola e ativista piauiense Antônio Bispo dos Santos, o mestre da oralidade Nêgo Bispo e seu pensamento contracolonial – que rejeita a lógica da dominação europeia e propõe a valorização dos saberes de povos que se insurgiram contra a colonização, como grupos indígenas e quilombolas do Brasil.
Nêgo Bispo defende a “confluência” de saberes e o conhecimento baseado na experiência prática, útil por exemplo para dançar ou cultivar a terra, em oposição ao conceito ocidental de desenvolvimento. E é nessa esteira que o espetáculo levanta a bandeira do corpo como um espaço de preservação e manifestação de saberes, buscando ampliar as possibilidades expressivas da dança feita no Brasil.
Em cena, Mirela França constrói uma narrativa que questiona sua própria formação no balé clássico – de origem europeia e elitista – para propor novas fabulações e facetas associadas a brasilidades plurais.
O roteiro coreográfico é costurado por experiências autobiográficas relacionadas ao êxodo artístico da bailarina por cinco estados de três regiões do país. Em cena, a artista confronta estereótipos e comentários preconceituosos por sua origem. Como mulher branca e, orgulhosamente, nordestina, Mirela utiliza o palco para refletir sobre o papel da arte dentro de uma estrutura social marcada pelo patriarcado e pela branquitude.
Contundente, “(em) carne viva” critica a busca incessante pelo progresso a qualquer custo e traz um alerta social urgente: na engrenagem do desenvolvimento econômico e urbano, especialmente no cenário brasileiro, são os grupos historicamente vulnerabilizados – como populações negras, indígenas e periféricas – os primeiros a sucumbir.
“Estou super feliz de dançar em casa, no Rio Grande do Norte. É a primeira vez que apresento meu trabalho autoral, como uma artista amadurecida, no lugar em que dei meus primeiros passos, inclusive na dança. Espero que seja o primeiro de muitos aqui”, diz a bailarina.
SERVIÇO
O quê: “(Em) Carne Viva”
Quem: Mirela França (Salvador-BA)
Quando: sábado, dia 26, às 18h30
Onde: Banco do Nordeste Cultural Mossoró (Pça Vigário Antônio Joaquim, Centro)
Classificação indicativa: 16 anos



