Nas últimas semanas, Cabo Verde voltou a despertar a curiosidade dos brasileiros. Se o futebol colocou o pequeno arquipélago africano no centro das conversas, agora é a música que convida o Brasil a olhar novamente para um país cuja história sempre esteve profundamente conectada à nossa.
É desse reencontro que nasce o Conexão África Brasil, álbum idealizado pela cantora, compositora e gestora cultural Solange Cesarovna, uma das figuras mais importantes da indústria musical cabo-verdiana. O primeiro capítulo dessa jornada chega no dia 12 de agosto nas plataformas digitais, com o lançamento de “África em Mim”, single gravado ao lado de Carlinhos Brown e com produção musical de Pretinho da Serrinha e Marcel Klemm.
O projeto reúne composições e parcerias com alguns dos mais emblemáticos compositores e artistas brasileiros: Carlinhos Brown, Evandro Okán, Lary, Délcio Luiz, Macau, Max Viana, Gabriel Viana, Layla, Pretinho da Serrinha, Kainã do Jêje, Lucas Cirillo, Detona Cry, Ariel Donato e Lucas Sir, além da participação de alguns dos mais conceituados compositores e produtores do Continente Africano, entre eles Mr Brown, de origem zimbabuana e que construiu sua carreira na África do Sul.
Mais do que apresentar uma nova artista ao público brasileiro, o lançamento inaugura um movimento cultural que pretende construir pontes permanentes entre Brasil e países africanos, tendo Cabo Verde como ponto de partida. A proposta é ampliar o intercâmbio entre artistas, fortalecer mercados criativos e celebrar as heranças culturais compartilhadas entre os dois lados do Atlântico.
Embora separados pelo oceano, Brasil e Cabo Verde dividem uma história atravessada pela diáspora africana, pela música, pela oralidade, pela religiosidade, pela língua, pelo carnaval, e pelas inúmeras formas de resistência que seguem moldando suas identidades. É justamente esse patrimônio comum que Solange transforma em matéria-prima para sua obra.
“África em Mim” propõe um reconhecimento afetivo dessas conexões. A canção parte da ideia de que a África não representa apenas um lugar de origem, mas uma presença viva na cultura brasileira — nas sonoridades, nos corpos, nas festas, na espiritualidade e na maneira de existir. Ao lado de Carlinhos Brown, artista que tem sua trajetória também marcada pela valorização das matrizes afro-brasileiras, a cantora inaugura um diálogo musical que sintetiza o espírito do projeto e ainda reserva surpresas futuras.
O projeto Conexão África Brasil também representa uma nova etapa na trajetória de Solange Cesarovna. Durante décadas, ela atuou nos bastidores da música africana, tornando-se uma das fundadoras da Sociedade Cabo-verdiana de Música, entidade dedicada à valorização dos artistas, autores, compositores, produtores musicais e dos direitos autorais em Cabo Verde, da qual foi presidente durante uma década a partir de 2013, transformando substancialmente o setor. Ao longo de sua carreira, tornou-se presença frequente em debates internacionais sobre economia criativa e circulação da música, além de levar a cultura cabo-verdiana a importantes palcos, como o Auditório della Conciliazione, no Vaticano.
Agora, pela primeira vez, escolhe colocar sua própria voz no centro da narrativa. “Este projeto nasce de um sonho que carrego comigo há muitos anos, desde a época em que fiz a faculdade no Brasil e vivi cinco anos inesquecíveis no Rio de Janeiro. Foi ali que nasceu o desejo de fortalecer o diálogo que sempre existiu entre o Continente Africano e o Brasil”, comenta Solange.
Inspirado pelo conceito africano Sankofa — filosofia do povo Akan, de Gana, que ensina a importância de olhar para o passado para construir o futuro —, o Conexão África Brasil propõe revisitar memórias e ancestralidades como forma de imaginar novos caminhos de colaboração entre o continente Africano e o Brasil, que é considerado um país continental. O projeto também propõe o conceito de Umoja, palavra suaíli que significa “unidade”, sintetizando o caráter coletivo da iniciativa.
A experiência se expande para além da música. Todo o processo de criação está sendo registrado em um documentário dirigido por Rafael Dragaud, com direção criativa de Renan de Andrade e direção musical de Marcel Klemm. O filme acompanha encontros, bastidores e reflexões sobre pertencimento, memória, identidade, cultura, arte e o papel da música nesta união continental, ampliando o Conexão África Brasil para além de um lançamento fonográfico.
Mais do que um álbum ou uma sequência de singles, Solange apresenta uma plataforma de intercâmbio cultural que pretende aproximar artistas, autores, compositores, produtores, pesquisadores e públicos dos dois lados do Atlântico. Em um momento em que Cabo Verde volta a ocupar espaço no imaginário brasileiro, a cantora propõe um reencontro que vai além da curiosidade passageira: um convite para reconhecer uma história comum e imaginar, através da arte, novos futuros compartilhados.
Sobre Solange Cesarovna
Solange Cesarovna é cantora, compositora, gestora cultural e uma das personalidades mais relevantes da música cabo-verdiana contemporânea. Com uma trajetória que reúne criação artística, liderança institucional e atuação internacional, tornou-se uma referência no fortalecimento da indústria musical de Cabo Verde e na valorização dos direitos dos artistas.
Foi uma das fundadoras da Sociedade Cabo-verdiana de Música (SCM), entidade responsável pela gestão coletiva dos direitos autorais no país, transformando substancialmente o setor dos direitos autorais em Cabo Verde e da qual assumiu a presidência em 2013. Ao longo dos anos, participou ativamente da construção de políticas voltadas ao desenvolvimento da economia criativa, representando Cabo Verde em encontros, conferências e fóruns internacionais dedicados à música, aos direitos autorais e às indústrias culturais e atualmente é Vice-Presidente da Academia Africana de Música (AMA) e do Conselho Internacional de Criadores de Música (CIAM), para além de ser a primeira CLIP Champion da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO).
Como artista, Solange desenvolve uma obra profundamente conectada às raízes culturais de Cabo Verde e às tradições musicais africanas, explorando temas como identidade, ancestralidade, pertencimento e memória. Neste momento, prepara surpresas e inovações nos seus caminhos artísticos, que terão as suas primeiras revelações no álbum de inéditas, mas também de tributos especiais, que tem o principal objetivo homenagear a Conexão entre a África e o Brasil.
Sua trajetória também inclui um feito histórico: foi a primeira cantora cabo-verdiana a se apresentar no Auditório della Conciliazione, no Vaticano. Reconhecida por transitar com naturalidade entre a criação artística e a articulação cultural, Solange Cesarovna construiu uma carreira dedicada a ampliar o alcance da música cabo-verdiana, promovendo o diálogo entre diferentes culturas e fortalecendo a presença da produção africana no cenário internacional.


