Obra transforma relatos de pessoas não alfabetizadas em contos que valorizam a oralidade e resgatam trajetórias invisibilizadas
Num país onde a escrita valida existências, registrar a própria história ainda é um privilégio. A ausência das letras, por falta de acesso à escola, empurra milhões de brasileiros para uma espécie de invisibilidade. Foi desse incômodo que nasceu “Eu escreveria se soubesse”, livro que transforma relatos de pessoas não alfabetizadas em literatura e devolve a elas o que sempre lhes pertenceu: voz e memória.
A obra reúne 15 contos baseados em histórias reais de norte-rio-grandenses: Ana Nascimento, Badeco, Baiana, Biuíca, Dair, Dona Neuza, Gaspar, João da Bolacha, Lourdes, Luiz Luna, Mané Mulher, Maria Margarida, Maria Pequena, Novinha e Vanusa. Eles não tiveram acesso pleno à escola, mas suas experiências de vida e de trabalho revelam formas próprias de interpretar o mundo.
As narrativas foram recolhidas em comunidades rurais, periferias urbanas, regiões de pesca e áreas de mangue, compondo um mosaico social que expõe trabalho infantil, vida no roçado, deslocamentos, vínculos comunitários e formas de resistência que definem identidades no Rio Grande do Norte.
Financiado pela Lei Paulo Gustavo, via Governo do Estado, o projeto percorreu o RN com uma metodologia centrada na escuta e no respeito à oralidade. Cada protagonista ditou o ritmo e o tom da própria narrativa. Além dos contos, cada personagem recebeu um perfil biográfico que aproxima o leitor da trajetória real por trás da história.
O livro foi organizado e parcialmente redigido por Ana Santana Souza, seridoense de Caicó, doutora em Literatura Comparada, professora aposentada da UFRN e autora de obras como “As faxineiras sabem de tudo”; por Anna Karlla Fontes, jornalista e redatora, também caicoense, cuja experiência com histórias orais sustenta a delicadeza do projeto; e por Octávio Santiago, natalense, jornalista e doutor em Comunicação, pesquisador das relações entre identidade e estereótipos e autor de “Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste”.
Segundo os organizadores, a proposta foi transformar personagens em coautores e reverter o fluxo tradicional da escrita: em vez de enquadrar a fala, deixá-la conduzir a narrativa. Durante o processo, cada relato foi tratado como uma troca: não apenas palavras, mas memórias, modos de narrar, ritmos de fala e referências culturais que compõem universos próprios.
O livro terá uma agenda de lançamentos, começando nesta quinta-feira (11), por Caicó. Os exemplares serão distribuídos em escolas, bibliotecas comunitárias e salas de leitura, e parte significativa ficará com os próprios protagonistas, uma forma de reconhecimento e celebração para aqueles que dão sentido ao livro. A obra também ganhou versão em audiolivro disponível no Spotify.
“Eu escreveria se soubesse” reafirma que nenhuma história é pequena demais para ser registrada. E mostra que, quando a escrita se encontra com a oralidade, a memória ocupa o lugar que sempre lhe pertenceu.




