Maracatu, samba e Manguebeat estão entre as manifestações estudadas pelos alunos da Casa Escola; o objetivo é resgatar a essência cultural da festa e valorizar sua identidade
O Carnaval está chegando, e, para os alunos da Casa Escola, a festa começa antes da folia. Durante esse período, os estudantes estão desenvolvendo projetos que exploram a cultura afro-brasileira e resgatam figuras históricas, tradições e manifestações artísticas que ajudam a contar a história do Brasil. O objetivo é promover o aprendizado sobre ancestralidade, identidade e pertencimento cultural, incluindo também perspectivas sociais, de raça e gênero.
No 4º ano, por exemplo, as pesquisas são voltadas para o samba e a contribuição das sambistas negras que desempenharam um papel fundamental na consolidação do gênero. “Nosso intuito é trazer para as crianças as histórias que foram silenciadas ao longo do tempo. Queremos que elas compreendam a importância dessas mulheres para o desenvolvimento musical e para a intelectualidade das matrizes afro-brasileiras”, afirma Mariane Soares, coordenadora do Ensino Fundamental 1.
Nomes da velha e jovem guarda do samba, como Tia Ciata, Jovelina Pérola Negra, Dona Ivone Lara, Leci Brandão e Teresa Cristina, estão sendo estudados pela turma. A coordenadora explica que a escolha dessa temática visa “instigar a comunidade escolar a dar visibilidade a histórias essenciais, muitas vezes esquecidas, e lançar um olhar atento para memórias que nunca devem ser apagadas.”
Já no 3º ano, o tema é o Maracatu, e, de acordo com a diretora da Casa Escola, o projeto está alinhado ao tema anual da escola, Cenários Invisíveis, e evidencia como essa tradição, trazida pelos africanos escravizados, foi fundamental na formação da identidade cultural do Brasil. “Ao estudar o Maracatu, os alunos aprendem sobre resistência, a riqueza das manifestações culturais afro-brasileiras e começam a enxergar além do que frequentemente se chama ‘mainstream’”, destaca Priscila Griner.
O termo “mainstream” (“corrente principal”, em tradução livre) refere-se ao conjunto de ideias, tendências, práticas e produções amplamente aceitas e consumidas pela maioria das pessoas em uma sociedade. É comumente aplicado a músicas, filmes, programas de TV, moda e outras formas de expressão que “atingem uma grande audiência e dominam os espaços de mídia e consumo, muitas vezes priorizando entretenimento e acessibilidade em vez de aprofundamento crítico”.
Contexto social
Outra abordagem trabalhada na Casa Escola, pelo 5º ano, neste Carnaval, é a relação entre música e contexto social, utilizando as letras das canções do movimento Manguebeat. Surgido no Recife nos anos 1990, o movimento abordava os desafios sociais e ambientais das cidades a partir da experiência de seus compositores. Com base nisso e inspirados nas letras de Chico Science, Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, os alunos refletem sobre a dinâmica socioespacial urbana e suas consequências.
Para Priscila Griner, integrar o Carnaval às atividades pedagógicas reforça o compromisso da escola com uma educação voltada para a história, a cultura e a diversidade. “A cultura popular é uma grande aliada da aprendizagem. Ao trazê-la para dentro da sala de aula por meio de suas manifestações, criamos conexões mais significativas e ajudamos as crianças a desenvolver um olhar mais crítico sobre o mundo ao seu redor”, encerra a diretora da Casa Escola.